Como o precedente título já adiantou, neste texto buscarei expor os argumentos e motivos que me fazem descreditar, e até desacreditar tal política governamental.
Pragmaticamente falando, essa política funciona. E agora, grande parte dos leitores desse artigo pensará "Pombas! Então por quê criticar algo que funciona?", lembrá-los-ei que o nazismo também funcionava na Alemanha, que tirou esta do fundo do fosso no qual estava mergulhada pela crise, às custas da vida de milhares de judeus; e para não ficar apenas em um exemplo estrangeiro, lembrem-se os senhores e senhoras que o milagre econômico brasileiro ocorreu durante a ditadura militar (regime autocrático).
Retornando, pois, à especificidade do assunto proposto, analisemos-lo. É importante notar que com as cotas, as regras para ingressar numa universidade pública, o que acredito ser o escopo de todo vestibulando que se dedica, mudaram quando o processo de preparação já havia se iniciado. Alguns alegarão que o processo não foi alterado durante o seu trâmite, pois esse se iniciaria com a inscrição do vestibular, ou até com a matrícula num cursinho preparatório, não sendo portanto prejudicial a esta geração que nos últimos anos prestou o exame, mas somente àquela primeira afetada pela diferenciação das vagas oferecidas.
Seria muita hipocrisia alegar que essa política de cotas não afetou todas as gerações posteriores àquela já citada, pois a preparação não começa no ano do vestibular, pelo menos pra mim não começou; quando os pais matriculam seu filho num colégio particular, observando o sucateamento do ensino público, objetivando dar a ele um ensino de melhor qualidade, talvez tenham as mesmas condições que um pai de classe média que matricula seu filho no ensino público, objetivando economizar. No momento em que esses pais matricularam seu filho em um colégio particular começou o "jogo", a preparação para o processo seletivo, então, a "regra do jogo mudou no meio do jogo".
Outro ponto que chama bastante a atenção é que uma boa parte dos alunos que ingressam na universidade pública através das ''cotas sociais'' fez um cursinho preparatório durante o ano do vestibular (posso estar errado, mas foi isso que observei). Não me cabe aqui fazer um juízo de valor, dizer se isso é ético ou não, mas há um desvirtuamento do princípio que fundamentou tal ação estatal, ou seja, garantir que o ensino superior público fosse acessível às classes mais baixas; ora, se quem está se aproveitando dessas cotas são alunos oriundos da classe média matriculados no ensino público, com possibilidade de custear um curso preparatório (existem sim exceções, como alguém que trabalhe e custei seu curso, porém jamais as presenciei), está no momento de rever os critérios para preenchimento destas vagas preferenciais: de maneira a não prejudicar aqueles que se enquadram no preceito fundante desta política, mas de impedir que aqueles que teriam condições de concorrer em pé-de-igualdade com os não atentidos por tal ação pública sejam injustamente beneficiados.
E já me despedindo, é importante ressaltar que esta diferenciação das vagas universitárias, além de dever ser acompanhada por uma melhora nas instituições públicas de ensino fundamental e médio, deve ser temporária, deve ser conforme a prescrição estabelecida em sua lei, estatuto, ou algo semelhante no qual se baseie sua criação. Caso contrário, criaremos aquilo que tanto abominamos: uma sociedade segregada em relação ao ensino superior.